A 27 de Janeiro de 1945, faz hoje 75 anos, que o exército russo entrou no campo de concentração alemão de Auschwitz-BirKenau, nome que é um símbolo do maior crime cometido contra a humanidade – o Holocausto, ou Shoah, em hebraico.

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A data tornou-se símbolo da libertação do horror nazi e, pela dimensão dos crimes aí praticados, passou a representar todos os horrores.

O que tornou o Holocausto único foi sobretudo a desumanização ao mesmo tempo brutal e planeada que ele implicava, que desqualifica “o outro”. A intenção nazi de exterminar todo um povo, tendo levado a cabo o genocídio com uma frieza industrial, mecânica, como se fosse uma linha de montagem numa fábrica. Identificou um problema e para ele o regime nazi encontrou a solução final. Estima-se que pereceram em Auschwitz pelo menos 1,1 milhão de judeus foram ali assassinados, a par de mais de 70.000 polacos, 21.000 ciganos e cerca de 15.000 prisioneiros de guerra soviéticos. Em alguns períodos, na curta existência do campo de morte (de 39 a 45), chegaram a fazer desaparecer cerca de 20 mil seres humanos por dia, com a mesma frieza burocrática com que se organiza uma linha de montagem.

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O requintado e eficiente programa nazi de praticar um extermínio, sem rosto e sem memória, fazendo do lager (campo), um universo tão fechado e concentracionário, que dele os deportados só saíam em cinzas, pela chaminé.

O que é único, de novo, é tudo isto ter saído de um país que se apresentava como um dos mais civilizados e sofisticados, algo que levou o biógrafo de referência de Hitler, Ian Kershaw, a considerar que a Shoah nos deu a mais clara e chocante indicação das capacidades da humanidade, uma visão da patologia da modernidade e a prova mais evidente do fino verniz da civilização.

Daí a centralidade e lições de Auschwitz para os nossos dias, campo onde ainda hoje se entra passando sob as ignominiosas palavras – Arbeit macht frei, o trabalho liberta – e que é o museu do horror, com os seus milhares de próteses, de sapatos, malas, brinquedos de criança, de despojos, com as suas amostras de tecidos feitos de cabelos humanos ou com o seu pequeno crematório. O horror em estado puro. O mal absoluto (Hannah Arendt)  

Nós europeus não sabemos se podemos alguma vez resgatar para sempre a humanidade dos crematórios de Auschwitz. Talvez por isso todos nós devessem ir pelo menos uma vez a Auschwitz. Pelo menos uma vez.

A História, enquanto disciplina que recorda o passado, para além das memórias particulares de sobreviventes – por exemplo, ler “Se Isto é um Homem”, de Primo Levi, ou “A Noite”, de Elie Wiesel, ou o testemunho tocante do “Diário” de Anne Frank, ajuda-nos a estarmos alerta, para que crimes idênticos, cujos antecedentes se assemelham, não se repitam. Na nossa europa (e no mundo) vamos observando sinais preocupantes, com a construção de muros, o aumento do antissemitismo, perseguição a minorias, a forma como lidamos com o problema dos refugiados e a indiferença geral perante os que mais sofrem.

Por esta razão a ONU instituiu em 2005 este dia 27 de Janeiro como Dia internacional de Lembrança ou de Memória do Holocausto, assinalando o dia da libertação de Auschwitz.

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E ao assinalarmos este dia no nosso agrupamento, aproveitamos para desafiar a comunidade a estar atenta (e participar) num conjunto de iniciativas que o Clube Europeu pretende dinamizar e desenvolver em torno de temas como o Ser Europeu, as suas instituições, migrações, documentários, exposições, etc. 

Conhecer bem a nossa história (bem recente) e exercitar a memória ajuda-nos a não repetir os horrores e erros do passado.

Fátima Silva/Paulo Barata (Clube Europeu)