No dia de hoje, data banal para muitos, cumprem-se 76 anos - precisamente 27 740 dias, desde que os soldados russos invadiram Auschwitz e descobriram, ou tiveram a confirmação, do que lá ocorria. Ainda hoje quem visita o campo é recebido pela mesma mensagem de boas vindas que aguardava todos os que chegavam ao campo, onde se lê o “infame” Arbeit Macth Frei, traduzido como “o trabalho liberta”. Apesar de constituir apenas um dos cerca de dois milhares de campos que foram criados, o campo de Auschwitz representa, pela dimensão das monstruosidades aí praticadas durante os cerca de seis anos de funcionamento ativo, todo o Holocausto (Shoá).

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Na prática o seu complexo albergava um conjunto de campos, com lógicas e objetivos diferentes – concentracionário, Auschwitz I, de trabalho forçado escravo, Buna (Auschwitz III) e de assassínio puro, simples e sistemático, o infame Birkenau (Auschwitz II).  Foi neste último que existiu a chamada seleção à chegada dos comboios, na qual era feita a triagem entre a maioria dos deportados – parte eram logo enviados para a morte imediata nas câmaras de gás (basicamente mulheres, crianças, idosos e doentes), com os restantes, os que eram considerados úteis para o trabalho, destinados ao serviço escravo nos complexos do campo – um tipo de “morte” um pouco mais lenta. No seu conjunto, pereceram em Auschwitz cerca de um milhão de Judeus, 75 mil polacos, 21 mil ciganos, 15 mil prisioneiros soviéticos e outros 20 mil deportados de várias raças e proveniências.

Se o termo Shoá, ou holocausto, se reporta ao genocídio basicamente de judeus, através do qual foram assassinados cerca de 6 milhões durante todo o período da guerra (39-45), os nazis perseguiram também outras minorias, como aconteceu com cerca de 500 mil ciganos e 70 mil deficientes físicos ou psíquicos, por quem aliás iniciaram as experiências de extermínio, ainda durante os anos 30. Para se ter uma ideia da dimensão da barbárie, relembra-se que os anteriores não foram as únicas vítimas – durante o período em causa foram assassinados 3 milhões de prisioneiros de guerra, cerca de 1 milhão de sérvios (às mãos dos croatas, aliados dos nazis), cerca de 100 mil católicos, de várias proveniências, inclusive alemães opositores ao regime, e outros “diferentes”, como os 10 mil homossexuais e centenas de testemunhas de jeová.

Numa sociedade como a nossa, da abundância, em que temos acesso a muita informação e conforto, tendemos a esquecer o passado e a sua história, e algum do presente que nos vai rodeando. É claro que não estamos, felizmente, confrontados com uma guerra que envolva todo o mundo como foi a IIª guerra mundial, mas vivemos tempos de “muitas guerras” e conflitos, e que se agravam com as crises. Basta estar atento e olharmos um pouco para o lado e sairmos de nós, como se costuma dizer. Assistimos à ascensão de regimes totalitários, à proclamação de ideologias extremistas, que julgávamos “sepultadas pela nossa civilização”, a defesa aberta da expulsão e afastamento dos que pensam diferente, professam religiões que não as nossas, de vermos nos outros obstáculos à nossa felicidade, crescimento e existência. E contra tudo isto se luta com educação, cultura, conhecer melhor “os outros”, o que é possível, só se se alcança, conhecendo bem o passado e as suas lições. Resta-nos, pois, confiar na educação, e no melhor julgamento de cada um, pois os genocídios, as atrocidades, os crimes de ódio continuam a acontecer por todo o mundo, e diariamente.

Como vimos, neste processo, que é de educação, ajuda muito conhecer-se a história, ler, ler muito – em particular as histórias de sobreviventes, como o “Se Isto é um Homem”, de Primo Levi, ou “A Noite”, de Elie Wiesel, ou o testemunho tocante do “Diário” de Anne Frank e, se possível, visitar os locais e sentir o silêncio dos lugares – diz-se que se sente o peso dos seis milhões de mortos, ao visitar-se Auschwitz – nem os pássaros se escutam! É uma visita que todos deveríamos fazer uma vez na vida – integra o programa escolar de alguns países, como na Alemanha. Tudo isto nos ajuda a sermos melhores seres humanos, mais tolerantes com os outros, mais solidários, e estarmos alerta para que crimes idênticos não se repitam.

E concluindo, regressando ao infame portão de Auschwitz, e ao entrar-se no primeiro bloco disponível nas visitas guiadas, o bloco 4, encontramos a seguinte frase - Those who do not remember the past are condemned to repeat it. Aqueles que não relembram o passado estão condenados a repeti-lo.

E ao assinalarmos este dia no nosso Agrupamento - o International Holocaust Remembrance Day – O Dia Internacional da Memória do Holocausto, aproveitamos para desafiar a comunidade a estar atenta (e participar) num conjunto de iniciativas que o Clube Europeu pretende dinamizar e desenvolver, nas condições possíveis, em torno de temas como o Ser Europeu, as suas instituições, migrações, documentários, exposições, etc.  Conhecer bem a nossa história (bem recente) e exercitar a memória ajuda-nos a não repetir os horrores e erros do passado. “O que aconteceu não pode ser desfeito, mas podemos impedir que volte a acontecer.” (Anne Frank)

Fátima Silva/Paulo Barata (Clube Europeu)