“Aconteceu uma vez. Não deveria ter acontecido, mas aconteceu. Não deve acontecer outra vez, mas pode acontecer. É por isso que a Educação sobre o Holocausto é fundamental.”

Foi com estas palavras poderosas, proferidas há um pouco mais de 20 anos em Estocolmo na abertura do encontro internacional sobre o Holocausto - fórum onde foram lançadas as bases do estudo, preservação, divulgação da memória e ensino do Holocausto, que decidimos receber os visitantes da nossa iniciativa, desenvolvida a partir da exposição “Para lá das Aparências”, facultada pela Memoshoá.

Vilar Formoso

 

A encabeçar o cartaz de abertura da atividade ainda se ponderou o Arbeit Macht Frei dos portões de Auschwitz, esse lugar construído sobre a crueldade humana, um Gólgota do mundo contemporâneo e infame símbolo do derradeiro mal (numa síntese de referências a Auschwitz proferidas por João Paulo II) mas optou-se pela referência e ênfase à necessidade de melhorar o conhecimento e o ensino do Holocausto. Afinal, esta atividade realizou-se numa escola e foi o corolário de muitas outras realizadas ao longo do (estranho) ano letivo que tivemos, inseridas no programa do nosso clube Europeu, que tem como um dos temas centrais o Holocausto (Shoah).

Apesar das quase oito décadas dos acontecimentos, o Holocausto possui um carácter universal e desafia profundamente os alicerces da nossa civilização. A sua reflexão e lições são fundamentais contra os males que hoje enfrentamos, parecendo que a humanidade não aprendeu o suficiente com este passado tão recente. E a escola tem essa responsabilidade e é o lugar certo para ensinar e promover os valores e direitos (humanos), que tão ausentes estiveram nos tempos e corações dos homens que recordamos ao lembrarmos o Holocausto.  

Podemos mesmo dizer que se encerrou o ano com chave de ouro, na sequência de um conjunto de atividades em torno da memória do holocausto – já em janeiro assinalámos a efeméride da libertação do campo de Auschwitz – o silêncio do mundo levou a Auschwitz. A exposição “Para lá das Aparências”, que tivemos exposta cerca de mês e meio, acompanha a vida dos judeus europeus desde a década de trinta até ao final da II guerra mundial, com o regresso a uma normalidade possível. Com ela percorremos a implantação do nazismo, a segregação crescente até aos guetos, as deportações, os campos (Lager), o período da guerra, a “solução final”, a resistência, a libertação e o regresso à vida.

Por uma opção narrativa – e mais adequada ao distanciamento social, foi distribuída por dois espaços da escola, em dois núcleos temáticos: na biblioteca a parte dedicada aos anos 30, até ao início da guerra, e uma segunda, centrada no período da guerra até à libertação e retorno à vida normal. Nos primeiros painéis (dos 20 que compunham a exposição principal), podemos acompanhar nas imagens e legendas o que foi o processo complexo encetado na Alemanha Nazi, de transformar inicialmente cidadãos em tudo iguais aos outros – em profissões, cargos, religião, integração na vida social etc, em cidadãos desprovidos de direitos e, mais tarde, sem direito à própria vida. Todos os que eram considerados indignos de pertencer à raça superior alemã, raça ariana, e identificados como inferiores – os judeus, minorias étnicas, elementos classificados como antissociais, homossexuais, vagabundos, irregulares presentes nesse tempo na Alemanha, foram engolidos por um processo de extermínio levado a cabo por gente normal, sem qualquer tipo de limites e consciência. Um vislumbre dessa atmosfera de crescente horror tiveram os alunos mais velhos dos 9ºs anos, ao assistirem ao filme Pianista (2002), tendo sido desafiados a responder a uma ficha/questionário de reflexão sobre o filme, material que ficou para trabalho futuro.

Para a compreensão (impossível) de todo esse período do holocausto - onde o horror parece ter substituído a humanidade, também se organizou uma exposição com cerca de 60 títulos que incluíam romances, reflexões, relatos de sobreviventes, análises, estudos históricos e publicações em revistas e jornais, inclusive, referências que envolviam portugueses. Durante as visitas, algumas acompanhadas, os alunos eram desafiados a refletir sobre algum quadro (ou publicação) em particular que mais os tenha tocado, um evento histórico, um personagem concreto, momento ou data, material que servirá de base para atividades futuras. Além das visitas aos diferentes núcleos, promoveram-se visitas acompanhadas e comentadas com algumas turmas, as que se envolveram mais na dinamização da iniciativa.

Como corolário da atividade - e porque um dos objetivos do Clube Europeu era a comemoração do Ano Europeu do Transporte Ferroviário, promoveu-se uma viagem de comboio a Vilar Formoso e ao seu Museu da Paz, a 22 de junho. Intitulou-se como “Comboios que Salvam”, em contraponto ao papel desempenhado no holocausto, de comboios onde seres humanos espremidos em vagões para gado eram transportados a caminho da morte. O Museu da Paz evoca os cerca de 100 mil judeus que entraram por essa fronteira, num movimento de fuga à perseguição crescente na Alemanha e numa europa cada vez mais hostil aos judeus e a caminho da guerra total. Foi um movimento que se iniciou a partir de 1935 - data em que é decretada na Alemanha as Leis de Nuremberga, que retiram aos judeus os direitos de cidadania e se criam as condições para uma discriminação jurídica sistemática. Rapidamente se transformam em personae non gratae, dispensáveis e indesejáveis aos olhos dos governos da maioria dos países europeus que se queriam ver livres delas o mais rápido possível. E uma das portas de fuga que restam eram a sul, a fronteira portuguesa de Vilar Formoso. É neste quadro de perseguição que emerge a figura de Aristides de Sousa Mendes, cônsul em Bordéus que, contrariando instruções oficiais, concede salvos condutos e salva cerca de 30 mil vidas da morte certa. O relevantíssimo papel em defesa da humanidade levaram-no a merecer destaque na lista dos «Justos entre as Nações» - quem salva uma vida, salva o mundo inteiro (Talmude). A figura de Aristides, e de outros portugueses como o embaixador Carlos Sampaio Garrido e o Padre Joaquim Carreira, a par da população de Villar Formoso, e as histórias e memórias de muitas vidas de famílias de refugiados concretos, preenchem este magnífico Museu.

É certo que o holocausto marcou um período da história e, com ele, muitas vidas se perderam indevidamente, mas não podemos fazer nada para recuperar essas vítimas, a não ser aprender uma grande lição sobre o holocausto. “O que aconteceu não pode ser desfeito, mas podemos impedir que volte a acontecer” (Anne Frank).

 E por isso o que aconteceu tem de ser lembrado e retiradas as lições acerca deste acontecimento sem precedentes, que desafiaram profundamente os valores humanos e que nos aproximaram da barbárie. Relembremos, ainda que isso nos custe aceitar, que tudo o que se passou foi feito por homens comuns, iguais a nós, incapazes de se colocarem no lugar do outro, que desprezam completamente. A expressão “banalidade do mal” (Hannah Arendt) mostra-nos o lado mais malévolo do ser humano como sendo algo intrínseco à condição natural do próprio homem, ou seja, a conduta, mal direcionada, pode ser muito perigosa porque ao agirmos incorretamente estamos a pôr em risco a vida de outras pessoas e a condição humana.

Os tempos que atravessamos na humanidade impelem-nos à reflexão constante sobre o que aconteceu, avivar a memória, compreender melhor os mecanismos e processos que conduziram ao holocausto, retirando as lições para os dias de hoje e futuro. O passado nunca é apenas passado. Diz-nos respeito e mostra-nos os caminhos a não percorrer. E a escola constitui lugar destacado para essas lições.

Fátima Silva/Paulo Dias

Clube Europeu AEGCC